Borderline

Essa é outra palavrinha polêmica. Trata-se de um diagnóstico da personalidade, portanto, é uma estrutura mais ou menos fixa em um indivíduo; o que não quer dizer que não seja moldável. Antigamente autores descreviam o fenômeno Borderline como um estado do psiquismo, localizado no limite (fronteira) entre a neurose e a psicose.


A palavra Borderline significa exatamente isso, um estado ou situação que está na borda, ás margens de outra situação. Significava implicitamente, portanto, estar entre duas condições diferentes, com a possibilidade de pertencer a qualquer uma delas, quase como uma área de intersecção de dois elementos. Esse conceito mudou com o tempo.... Atualmente, muitos preferem considerá-lo como uma estrutura/organização, contendo suas próprias características.

Um dos primeiros estudos que se destacaram nesta mudança de definição foi o de Grinker (1968) que estabeleceu 4 fatores como elementos base:

1-Raiva como principal afeto,

2-Relação interpessoais tumultuadas,

3-Ausência de identidade de self consistente,

4-Depressão difusa.

Mais tarde outros autores contribuíram para determinar as caracterizações; então observou-se que estes pacientes partilhavam alguns elementos como:

A) Impulsividade: o ego normal é capaz de refrear impulsos e modular afetos, mas estes pacientes possuem grande fragilidade do ego e por isso não conseguem sublimar impulsos e não utilizam a consciência para orientar o comportamento. São imediatistas, explosivos e por vezes irracionais.

B) Mudanças exuberantes na direção do pensamento: estes pacientes são volúveis, ou em alguns casos o certo seria dizer que são voláteis. Mudam de opinião bruscamente de uma hora para outra, geralmente quando existe uma pressão dos afetos. Por isso eles foram chamados de “emocionalmente instáveis” visto que a única coisa constante neles é a inconstância.

C) Mecanismo de defesa do ego é primitiva: um dos meios de defesa usados é aquilo que chamamos de cisão. Isso é marcado por comportamentos contraditórios com os quais o paciente não se importa ou nega; uma divisão intensa de qualquer coisa entre “totalmente bom” e “totalmente mau”, o que é irreal; e visões de si mesmo -que também é volátil- indo de um extremo ao outro de modo aleatório e imprevisível. Como fruto da cisão existem os itens D e E a seguir.

D) Relações objetais patológicas: o paciente boderline não considera que uma pessoa pode ter um misto de qualidades boas e ruins. Eles não conseguem integrar aspectos opostos então estão sempre nos extremos. Porém são instáveis e nunca se fixam. Deste modo, eles tendem a ver numa pessoa os aspectos positivos, então enxergam só isso e logo há uma idealização, aquela pessoa é o suprassumo da humanidade. Contudo, com qualquer sinal de rejeição ou reprovação, o borderline vai passar a ver nesta mesma pessoa apenas os aspectos ruins. Logo ela será desvalorizada e passará a ser a pior pessoa do mundo, sendo digna de receber todo o ódio que o bordderline consegue sentir. Essa mudança de extremos ocorre em um piscar de olhos!

E) Visão de si mesmos: de modo semelhante ao item D, o borderline se vê apenas nos extremos. Assim, em alguns momentos ele vai se achar o máximo, o mais inteligente, belo e digno da inveja alheia (sim, parece com o narcisismo e tem muita relação com isso). Mas essa visão de si é instável. Logo ele vai se ver como uma pessoa horrível, feia, nojenta e começa a sentir raiva de si mesmo e pode chegar a se ferir gravemente nestes momentos. Novamente, essas mudanças podem ser absurdamente rápidas.

Como consequência desta inconstância, os relacionamentos dos pacientes com esta personalidade costumam ser muito tumultuados. O borderline pode te amar intensamente, mas em questão de minutos pode passar a te detestar e te odiar de todo coração. Não se trata de fingimento, mas sim de uma fluidez patológica dos afetos. Parte dessa instabilidade vem de um medo (real ou imaginário) de ser abandonado pela pessoa “amada” então o boderline se esforça freneticamente para se livrar dessa sensação e vive numa tempestade de ansiedade. Nesse desespero, podem fazer tentativas de suicídio para manipular o “amado” e muitas vezes isso é bem violento.

Vale lembrar que o que foi descrito aqui é o quadro completo, mas existem muitos indivíduos que portam apenas alguns destes elementos, alguns traços do transtorno. Também é valido lembrar que isso pode acontecer com homens e mulheres, heterossexuais ou não, ricos ou pobres, com religião ou sem ela, com boa escolaridade ou sem, com bons empregos ou sem emprego. Não existe um rótulo ok?!

Muitos autores defendem que a origem deste transtorno vem do medo da separação/abandono da mãe. Consequentemente quando adultos, não conseguem ficar sozinhos e vivem lutando contra a ansiedade/medo de serem abandonados pelos outros. Isso está relacionado com a incapacidade destas pessoas de integrar aspectos bons e ruins ao mesmo tempo e tendem a uma “introjeção negativa”, o que os leva a uma eterna dissociação entre o “todo bom” e o “todo ruim”. Achados empíricos mostraram que de fato este transtorno está associado a uma infância difícil, marcada por negligência, abandono e abusos por parte dos cuidadores.

O tratamento medicamentoso pode ser necessário para amenizar sintomas como pensamentos sobre suicídio, compulsões, ansiedade e depressão. Contudo, o tratamento psicoterapêutico é mandatório nestes casos. O paciente precisa elaborar os traumas infantis para se desprender de comportamentos defensivos repetidos e inapropriados. Esse perfil de paciente se beneficia muito de uma psicoterapia bem-feita, e podem evoluir para um comportamento mais maduro, menos irritadiço, mais ponderado e estável.


Se este assunto te provocou algum sentimento incômodo, procure conversar com um profissional da saúde mental!


(Embasado em Glen O. Gabbard e no DSM-5)

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