Comer errado: um pecado contra a boa saúde.

Este pecado contra a saúde lembra muito o assunto da última postagem no sentido em que se aproxima muito de um dos Pecados Capitais pela Igreja católica. Hoje o assunto é sobre o modo como nos alimentamos. Na lista da Igreja, o pecado é a gula.


Para o catolicismo a gula é um pecado definido assim: desejo insaciável, irrefreável por comida, levando o pecador a ingerir quantidades muito grandes de comida. Segunda tal visão, a gula também está relacionada com o egoísmo humano uma vez que se alinha com o comportamento de “querer adquirir sempre mais e mais”, não se contentando com o que já tem, uma forma de cobiça. Esta forma de se relacionar com a comida impede o pecador de partilhar o alimento que sobra com aqueles que tem pouco para comer. Para a Igreja o antídoto para isso é a temperança!

Novamente, como na semana passada, é necessário afirmar que os modernos conceitos sobre saúde procuram se afastar de ideias religiosas pois ao médico não cabe julgamentos de ordem moral. Deste modo um bom médico não irá usar a palavra gula ao descrever um sintoma exatamente para evitar rotular ou discriminar o paciente. Quando se usa a palavra gula e se invoca a ideia de pecado, automaticamente se aproxima da ideia de “falha moral” de “falta de fé”, de “falta de fibra moral” ou julgamentos semelhantes que são totalmente contraproducentes no contexto terapêutico.

Qual palavra é adequada para substituir a palavra gula?

Essa é uma boa pergunta. Em uma análise mais superficial a palavra mais técnica seria hiperfagia, um termo que vem do grego hiper- (abundância, excesso) e -fagia (alimentação). A hiperfagia, também chamada de polifagia, consiste em uma desordem alimentar, caracterizada pela exacerbada ingestão de alimentos, ultrapassando o necessário para atender a demanda energética do organismo.

A gula (ou hiperfagia) pode ser doença?

Poder pode, mas nem sempre é doença. Quando falamos de hiperfagia como doença podemos dividir em dois grandes grupos de doenças: 1-Biológicas 2-Psicológicas.

Nas doenças biológicas existem condições em que ocorre um aumento de apetite que geralmente se manifesta por aumento de consumo de alimentos calóricos (nunca acontece compulsão alimentar por alface, não é?!). As causas orgânicas são muitas como por exemplo nas doenças que cursam com alterações de hormônios. Vejamos alguns casos de doenças orgânicas que podem aumentar o apetite:

Diabetes mellitus e diabetes gestacional

Doença de Graves-Basedow

Hipertireoidismo

Medicamentos (corticosteroides, antialérgicos, antidepressivos, etc.)

Síndrome pré-menstrual

Sugiro marcar com um endocrinologista se for este o caso.

No segundo grupo estão doenças de natureza psicológica. Aqui estamos falando de um grupo de doenças que podem ser denominados como Transtorno da Alimentação. Um grande exemplo destas alterações mentais é a bulimia, uma síndrome caracterizada por acessos repetidos de hiperfagia e uma preocupação excessiva com relação ao controle do peso corporal conduzindo a uma alternância de hiperfagia e vômitos ou uso de purgativos. Hiperfagia, entretanto pode estar associada a outros distúrbios psicológicos, por exemplo ela pode ser devida a eventos estressantes, tais como lutos, acidentes, partos etc.

Sendo biológicas ou psicológicas estas situações precisam de uma boa avaliação médica. A grande questão é quando não se trata de doença.

A hiperfagia pode não ser doença?

Sim. Na verdade, a maioria das pessoas que dizem comer em exagero não possuem doença de base. Muitas vezes se trata do que chamamos de erros alimentares, que são hábitos um pouco destrutivos a longo prazo. Muitos destes hábitos possuem origem em culturas e tradições antigas e nem sempre é fácil se desvencilhar disto. Vejamos uma coisa, na sua família se faz comemorações sem ter um monte de comidinhas gostosas? Acho que a resposta é um retumbante não. Nós estamos muito habituados a comemorar e festejar com muita comida. Pense em todas as nossas tradições culturais:

Festa de aniversário = bolo com cobertura açucarada, brigadeiros, bombons, refrigerantes etc.

Festa de casamento = Bolo com cobertura doce, bombons e bebidas. Descobri recentemente que agora também se faz festa para o divórcio = mais comida.

Páscoa = Chocolate até dizer chega.

Festa Junina = Pé de moleque, curau, pamonha, pipoca etc.

Festa natalina = Leitoa à pururuca, chester , rabanada, pavê...

Chega né?! Já deu para entender. Se hiperfagia é exacerbada ingestão de alimentos, quantas vezes você já se viu nesta situação? Por isso os erros alimentares são em sua maioria hábitos construídos em nossa história de vida e mantidos pelo contexto cultural.

Mas a hiperfagia sem ser doença pode ser perigosa?

Definitivamente, sim. Ela é a causa da maioria dos casos de sobrepeso e obesidade, estão associadas ao aumento de diabetes tipo II, associadas também a hipertensão arterial que são situações muito graves. Então ela em si não é doença mas abre as portas para doenças realmente preocupantes.

Esta hiperfagia de hábitos errados está causando obesidade?

Sim. Não há dúvida que os erros alimentares embasados nos hábitos causam a grande maioria dos casos de obesidade. O aumento do peso corporal é uma tendência mundial. Nos Estados Unidos, por exemplo, 35% da população estão acima do peso. O Brasil segue a mesma tendência, aqui já há 40% de pessoas com peso acima do normal. É na faixa mais pobre da população que este número mais cresce. Esta tendência é um processo histórico devido ao aumento da produção de alimentos em geral e dos industrializados, associado ao aumento do sedentarismo e ao estilo de vida das metrópoles.

Como saber se sou apenas fofinha (o) ou se estou obesa (o)?

O diagnóstico da obesidade é feito através do cálculo de índice de massa corporal (IMC), método mundialmente difundido e criado por Adolphe Quételet, que consiste em dividir o peso do indivíduo (em quilogramas) pelo quadrado de sua altura (em metros). IMC menor a 18,5 corresponde a pessoas com peso abaixo do normal, entre 18,5 e 24,9 é tido como peso normal, entre 25 e 29,9 representa pessoas com peso acima do normal, entre 30 e 30,9 a pessoa está obesa e quando o IMC é maior do que 40 considera-se a pessoa portadora de obesidade mórbida.


Muitos especialistas criticam o critério do IMC pois existem variáveis não consideradas neste cálculo. Por isso a medida da circunferência da barriga se tornou um critério mais específico. Não se trata de estética apenas, a barriguinha (maldita) é sinal de risco. James Cerhan e colaboradores da Mayo Clinic, nos Estados Unidos publicaram um importante estudo que mostrou que tanto em homens como em mulheres, a medida da circunferência abdominal esteve ligada à mortalidade geral. Comparados aos homens com circunferência menor do que 90 cm, aqueles com 110 cm ou mais apresentaram mortalidade 52% maior. Mulheres com 95 cm ou mais tiveram mortalidade 80% mais alta do que aquelas com circunferência abaixo de 70 cm. Já pegou a fita métrica aí?

Minha circunferência abdominal está grande, o que eu devo fazer?

Não existe milagre, não existe resposta fácil nem decisões fáceis. Também não existe lá nenhum grande segredo...tendemos a consumir muitos carboidratos e muita gordura e isso fatalmente leva ao aumento de peso. Precisamos comer menos carboidratos (principalmente os simples como o açúcar) menos gordura animal e mais fibras e proteínas magras.

Quais as dicas para eu ficar mais atenta aos hábitos alimentares?

Vou listar algumas dicas que não são exatamente consenso entre todos os profissionais de saúde, mas que com certeza te ajudarão a pensar melhor seus hábitos relacionados aos alimentos.

1- Você não presta atenção ao que come - É muito fácil, com toda a ocupação que o mundo atual nos traz, acabar fazendo tarefas ou distrair-se ao mesmo tempo em que faz uma refeição. Contudo, o ato de comer sem prestar atenção ao que está fazendo acaba diminuindo a percepção de saciedade e de controle de porções. Ou seja, sem prestar atenção ao que come, você tenderá a comer mais, no final das contas. Uma dica importante é não comer vendo TV.

2-A comida é sua melhor amiga - Essa é clássica: você se sente só, está triste, ou teve uma decepção, e acaba afundando a cara num pote de sorvete para aliviar seus sentimentos. Aqui é preciso um esforço para substituição desta “muleta” por outro hábito menos deletério. Está com raiva? Vá fazer uma luta, experimente o boxe para descarregar sua ira.

3-Você pula o café da manhã - Erro cometido por muita gente (sei que nem todo mundo vai concordar). Pular o café da manhã é comprovadamente uma forma de desacelerar o seu metabolismo, e além disso, seu organismo estará tão ávido por comida mais tarde que você tenderá a comer ainda mais ao longo do dia. Estudos comprovam que um café da manhã balanceado é crucial em qualquer programa de emagrecimento.

4-Não cozinhar / Comer fora de casa - Não cozinhar e comer fora de casa estão intimamente interligados por motivos óbvios. Se você cozinha seus alimentos, seu controle sobre tanto qualidade e quantidade do que ingere é quase que total. Já assistiu Bela Cozinha com Bela Gil? Você pode subsistir seu Ifood gordurento por receitas da Bela Gil por exemplo. Comendo fora, não só você perde esse controle, como está sujeito a tentações de todos os tipos e opções nos restaurantes.

5-Você bebe calorias - Uma ótima regra geral a ser adotada é não beber calorias, ponto. Bebidas ocupam menos volume no seu estômago, saciando menos, mas sem perceber você pode estar ingerindo uma quantidade de calorias enorme. É só pensar no estrago que refrigerantes e bebidas alcoólicas fazem nas suas tentativas de perder peso. Prefira sempre a boa e velha água.

6-Você praticamente engole a comida - Este erro atua da mesma forma que o erro citado no item 1. Ao comer rápido demais, seu cérebro terá a percepção diminuída de saciedade, e a tendência será que você coma mais. Então procure mastigar bastante os alimentos, pouse os talheres com frequência maior para mastigar, e assim seu cérebro perceberá mais facilmente que você está saciado e no final, acabará comendo menos.

7-Você “belisca” o tempo todo - As pessoas tendem a beliscar porcarias como biscoitos e batatas chips, o que facilmente adiciona calorias extras. Uma prática saudável é procurar ter lanches como frutas e nozes. Desta forma, você tenderá a beliscar menos.

8-Você é radical e tenta não comer nada do que gosta, numa tentativa de emagrecer: - Assim acaba caindo no mesmo erro de tantas e tantas pessoas que procuram dietas radicais. Mas agindo assim há um stress na sua mente, que vai reagir tentando te sabotar ainda mais. Ou seja, você se sentirá ainda mais tentado a comer besteiras e depois ficará frustrado. Evite isso com o conselho de sempre: aprecie suas guloseimas favoritas com moderação de vez em quando, mas sem que elas sejam protagonistas do seu cardápio.


Existe essa história de alimentos causarem depressão?

Este assunto ainda é novo e as evidências estão aparecendo aos poucos. Aqui é preciso considerar as numerosas intolerâncias alimentares que estão cada dia mais comuns. Se seu organismo tende a não processar corretamente determinados alimentos muitas substâncias inflamatórias são geradas com repercussão em vários sistemas, incluindo o sistema nervoso por exemplo. Existe um estudo no qual cerca de 43 mil mulheres sem depressão foram seguidas através do levantamento das suas dietas. Passados 12 anos, os dados foram comparados e aquelas que desenvolveram depressão eram as que consumiam mais alimentos pró-inflamatórios como refrigerantes, cereais refinados e carnes processadas, confirmando o que até então se tinha suposto: a dieta é um fator determinante no aparecimento da doença. Uma dica: monte uma dieta mais anti-inflamatória! Esta dieta é aquela que tem por base o consumo exclusivo de vegetais, legumes e frutas. Isso se justifica pela presença de grande quantidade de antioxidantes contidas nesses alimentos.


Contudo a melhor dica de todas é um velho conselho: procure um especialista no assunto. Consulte um nutricionista!

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