Personalidade Obsessivo-Compulsivo

Este nome gerou muita confusão entre as pessoas pois não significa transtorno obsessivo-compulsivo, que é o famoso TOC. Por isso eu sempre gostei do termo “personalidade anancástica” pois evita-se o mal entendimento.

O TOC é uma doença na qual a mente da pessoa é invadida por pensamentos obsessivos que são insistentes e que incomodam a pessoas (medo de estar sujo por exemplo). Para se aliviar deste pensamento que martela a mente, a pessoa elabora um comportamento que tenha um sentido antagônico na esperança de alívio. Mas o pensamento obsessivo sempre volta e então a pessoa repete compulsivamente o comportamento elaborado (lavar as mãos incansavelmente no exemplo citado) em uma sequência de repetição interminável. Neste caso o paciente entende que aquilo está fora de controle, o paciente fica muito incomodado, mas já não consegue evitar. Ele pode entender racionalmente a questão, mas mesmo assim não a controla.

Em contraste, a personalidade anancástica, ou obsessivo-compulsiva, é marcada por um padrão duradouro do tipo “desde sempre”, mas que não incomoda o paciente pois ele acredita firmemente que aquilo é o correto. Podem inclusive ser encarados como bons traços de personalidade pelos chefes pois são detalhistas, meticulosos e perfeccionistas. Mas como chefe ele geralmente não é o mais querido pois é exigente, rígido e inflexível. Geralmente esses comportamentos não incomoda o paciente, mas pode incomodar quem convive com ele.

Vamos enumerar algumas das características centrais deste tipo de personalidade:

1-Preocupação exagerada com detalhes (organizar, ordenar, classificar, fazer lista etc) ao ponto de se desfocar do objetivo principal a ser alcançado.

2-Perfeccionismo brutal. É incapaz de entregar algo que ele acredita estar pelas metades, mesmo que esteja bom. Por vezes deixa de entregar algo por julgar não estar perfeito o bastante, mas é teimoso em mudar de comportamento.

3-Foco extremado em algumas tarefas (por exemplo o trabalho) ao ponto de ignorar outros papeis sociais ou outras obrigações da vida comum.

4-Escrupuloso em exagero. Ama normas, regras, leis e se irrita com que não as obedece cegamente. É totalmente inflexível e não entende a existência de exceções.

5-Incapaz de livrar de objetos, mesmo velhos e sem valor sentimental. Tendem a acumular ou colecionar coisas.

6-Não gosta de delegar tarefas pois nunca confia que alguém poderá executar perfeitamente, seguindo estritamente as regras por ele estabelecidas.

7-Avareza. Ele vive um padrão muito inferior ao que poderia pois ele nunca gasta com nada. Para ele dinheiro deve ser guardado para alguma necessidade futura. Parece que está sempre esperando uma catástrofe.

8-Rigidez e teimosia que desafiam a lógica comum.

Existem muitas teorias que tentam explicar a origem deste tipo de personalidade. Muitos acreditam que a “pedra angular” está na infância quando a criança sente que não é valorizada pelos pais. Na busca deste reconhecimento começa a se esforçar ao máximo em tudo que faz. Esta criança cresce com a convicção de que não foi boa o suficiente, que não se esforçou o bastante. Quando adulta convive com uma constante sensação de "não estar fazendo o suficiente”, independente do esforço ou do resultado, é um sentimento cronificado. Estas pessoas possuem um Superego muito poderoso, como se introjetassem um pai severo, exigente e punitivo. Esse estilo cognitivo altamente exigente se alastra por toda a mente, de modo que nada que esse indivíduo faça é sem esforço. A pessoa nunca tem sossego, ela nunca relaxa. Não gosta de sair de férias, e se sair, fica preocupado com o que deveria estar fazendo e se culpa. Ela acha que férias é gastar dinheiro e tempo com algo sem retorno. Internamente esta pessoa é guiado por anseios, medos e inseguranças constantemente; e sempre estão ruminando algo mais menos assim:

1-Qualquer falha de desempenho de minha parte poderá ser uma catástrofe.

2-As pessoas precisam entender as normas e fazer todas as coisas exatamente da minha maneira. As pessoas precisam se adaptar à minha lei.

3-Não posso esquecer nenhum detalhe, preciso revisar tudo muitas vezes.

4-O dinheiro vai acabar e vou passar necessidades. É mais seguro guardar tudo.

5-Não posso perder nada, nenhum objeto, nem uma tampa de caneta.

6-Nada é seguro o bastante, nenhum lugar é seguro o bastante, nenhum emprego é seguro, nenhum relacionamento é seguro. Por isso fico vigilante o tempo todo.

7-Tenho medo de perder. Perder a admiração dos outros, perder dinheiro, perder objetos, perder a saúde.

8-Mudanças são um perigo. Qualquer mudança representa ameaça. Até um restaurante diferente ou uma comida diferente pode ser perigoso. É mais seguro repetir o de sempre.

9-A rotina nunca deve ser alterada. O seguro é repetir tudo sempre igual.

10-O mundo é que está errado, as pessoas não são capazes de ver os perigos que eu vejo.

O medo e a insegurança podem os bloquear, os impedem de tomar decisões. Por vezes é algo muito simples, mas eles deliberam tanto sobre riscos e benefícios que terminam não conseguindo decidir nada. O perfil inflexível destes pacientes termina por causar sofrimento para quem convive com eles pois eles são incapazes de ver que exageram no medo e nas posturas. Os familiares se desgastam, pois, ninguém suporta viver restrito por centenas de regras e os atritos começam. Isso pode reforçar a sensação de isolamento destes pacientes que, por final, concluem que é melhor ficar sozinho que se expor aos afetos flutuantes, que são vistos como ameaçadores.

Estes pacientes podem até desenvolver sintomas de depressão e chegam a precisar de psicofármacos. E por mais que não queiram, precisam muito de passar por um processo de psicoterapia.

Se este assunto te incomodou, não deixe de ler sobre isso e de buscar a ajuda de um profissional da saúde mental.

(Embasado em Glen O. Gabbard)

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